A Inteligência Artificial pode devolver tempo ao professor?

Quando a tecnologia reduz o tempo de trabalho, quanto desse tempo é efetivamente devolvido ao professor para sua vida pessoal, suas relações e seu descanso?

Acreditando que o ponto de partida para esta reflexão tem como referência o fato de que economizar tempo não é, por si só, humanizar o trabalho docente. Na verdade, o ganho pedagógico do tempo aparece quando esse tempo é reconvertido em autocuidado, relações, acompanhamento e decisão profissional. Esta é uma pergunta cuja resposta repercute sensivelmente sobre a Inteligência Artificial na educação sendo, de certa forma, mais importante do que saber quantas tarefas o professor pode realizar a mais ou que tipo de avaliação é possível fazer.

Um professor pode utilizar a IA para preparar uma atividade, reorganizar materiais, elaborar questões ou estruturar um comunicado em menos tempo. Mas, se os minutos poupados forem imediatamente ocupados por novas exigências, mais relatórios e maior volume de produção, houve ganho de eficiência, mas não necessariamente ganho humano em qualidade de vida.

Uma formulação simples ajuda a organizar o problema: “A tecnologia só humaniza quando permite tempo livre para as relações.” Esta frase, de um autor que não consegui identificar, não celebra a automação, oferece um critério para avaliá-la.

Tempo economizado não é necessariamente tempo devolvido

  Os dados disponíveis começam a mostrar que a IA pode reduzir o tempo dedicado a algumas tarefas docentes. Um ensaio, de iniciativa da Education Endowment Foundation, denominado Teacher Choices foi conduzido com 259 professores de Ciências de 68 escolas inglesas. O estudo revelou que os docentes que utilizaram ChatGPT com um guia de apoio gastaram, em média, 56,2 minutos semanais na preparação de aulas e recursos, contra 81,5 minutos no grupo sem IA. A redução foi de 31%, e a avaliação por especialistas não identificou perda de qualidade nos materiais produzidos. (educationendowmentfoundation.org.uk)

O resultado é promissor, mas precisa ser interpretado com cuidado. A esse respeito, vale citar que a OCDE, Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, reconhece o potencial das tecnologias digitais e da IA para reduzir tarefas não centrais do trabalho docente, mas adverte que a reorganização da carga de trabalho precisa considerar tanto a qualidade da prática profissional quanto a saúde mental e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal dos professores.” (OECD)

O foco da presente reflexão está na qualidade de vida do professor a partir do uso da IA generativa. Por isso, com o objetivo de melhor orientar esta reflexão, considero útil distinguir três situações que guardam relação com a economia de tempo via uso de IA, embora reconheça que o presente estudo não tem espaço suficiente para esmiuçar cada uma das dimensões a seguir, vale a pena citar, quando nada, para instigar o debate.

Primeiramente, o tempo economizado significando o número de minutos que uma ferramenta reduz a conclusão de determinada tarefa. O Tempo devolvido, aquele que pode ser, ou não, imediatamente capturado por novas obrigações. E tempo pedagógico qualificado, aquele que o professor consegue reinvestir, inclusive como ser humano, em atividades nas quais sua presença profissional faz diferença.

O que fazer com o tempo que a IA economiza?

Imagine um profissional da educação que gasta menos tempo produzindo a primeira versão de exercícios porque utiliza IA para gerar alternativas. O ganho pedagógico não está simplesmente em produzir vinte questões em vez de dez. Ele aparece quando parte desse tempo é utilizada para analisar os erros recorrentes da turma, conversar com um estudante que não está avançando ou adaptar uma atividade a diferentes necessidades de aprendizagem.

O mesmo pode ocorrer com feedbacks, relatórios, sínteses, devolutivas e comunicações rotineiras. A IA pode produzir rascunhos, organizar informações ou sugerir estruturas. Mas cabe ao professor verificar, selecionar, contextualizar e decidir. O objetivo não deveria ser transferir à máquina o relacionamento pedagógico, mas transferir a ela aquilo que pode liberar o professor para realizá-lo melhor.

É nesse ponto que a Curadoria Docente oferece um critério profissional. Não se trata de perguntar apenas “o que a IA consegue fazer por mim?”, mas também: “que parte desta tarefa pode ser apoiada pela IA sem que eu terceirize aquilo que exige julgamento pedagógico?”

Aqui, a Calibragem Didática torna-se especialmente importante. Um recurso produzido rapidamente pela IA pode estar correto e, ainda assim, ser inadequado para aquela turma, naquele momento e diante daquele objetivo. O tempo poupado na produção inicial precisa abrir espaço para o trabalho intelectual de ajustar complexidade, linguagem, sequência, exemplos e nível de desafio. 

Devolver tempo ao professor não é apenas um problema de tecnologia. É também uma decisão de gestão e de cultura institucional. 

A UNESCO defende uma abordagem centrada no ser humano para a utilização da IA na educação. Seu AI Competency Framework for Teachers coloca entre seus fundamentos a agência humana, a ética, a pedagogia e o desenvolvimento profissional docente. (UNESCO)

Essa perspectiva permite formular uma pergunta importante para as instituições: quando uma escola adota IA para reduzir a carga de trabalho, ela está criando condições para que o professor tenha mais tempo para si e para em(si)nar, observar, escutar, orientar e estudar, ou apenas aumentando a expectativa de produtividade?

Uma tecnologia pode tornar uma tarefa mais rápida e, ao mesmo tempo, intensificar o trabalho. Se cada minuto economizado se converte em mais uma tarefa, mais uma exigência, mais um relatório ou mais uma cobrança, a eficiência tecnológica não produz necessariamente qualidade de vida nem qualidade pedagógica. A própria OCDE sustenta que políticas de redução da carga de trabalho precisam criar espaço e tempo para que professores aprimorem sua prática, e não apenas realizem mais atividades. (OECD)

Mais eficiência ou mais presença? 

O verdadeiro ganho pode ser a presença. E presença aqui deve ser entendida como a presença de um ser humano que dedica parte de sua vida à docência, mas que precisa de tempo também para cuidar de si, cultivar relações, descansar e viver. A tecnologia pode tornar o trabalho mais eficiente, e a Inteligência Artificial pode, sim, economizar tempo em determinadas atividades docentes. As evidências iniciais apontam nessa direção; mas a sua contribuição mais humana está em devolver tempo à pessoa que existe para além do profissional e devolver tempo é algo que vai além de economizar minutos.

Tempo verdadeiramente devolvido é aquele que permite ao professor realizar melhor justamente aquilo que não deveria ser automatizado, qual seja, perceber uma dúvida que não foi verbalizada, acompanhar uma dificuldade, formular uma pergunta no momento adequado, conversar com colegas, estudar, revisar uma decisão e construir vínculos.

Talvez um dos critérios mais humanos para avaliar a utilidade da IA na educação, seja o de considerar não apenas quantas tarefas ela realiza ou quantos minutos permite economizar, mas que tipo de presença humana esses minutos tornam possível. A tecnologia começa a humanizar o trabalho docente quando a eficiência deixa de significar apenas produzir mais e passa a significar ter mais tempo para ensinar, pensar e se relacionar. Porque “A tecnologia só humaniza quando permite tempo livre para as relações.”

O livro Curadoria Docente – A Inteligência Artificial na Sala de Aula oferece reflexões e caminhos para compreender como a IA pode ser incorporada ao trabalho docente sem deslocar do professor aquilo que constitui sua responsabilidade profissional: selecionar, contextualizar, decidir e atribuir sentido pedagógico. Conhecer o livro pode ser um ponto de partida para aprofundar essa discussão. 

Referências

  • EDUCATION ENDOWMENT FOUNDATION. ChatGPT in lesson preparation: Teacher Choices trial. London: EEF, 2024. (educationendowmentfoundation.org.uk)
  • MIAO, Fengchun; CUKUROVA, Mutlu. AI competency framework for teachers. Paris: UNESCO, 2024. (UNESCO)
  • MIAO, Fengchun; HOLMES, Wayne. Guidance for generative AI in education and research. Paris: UNESCO, 2023. (UNESCO)
  • OECD. Education Policy Outlook 2024: Reshaping Teaching into a Thriving Profession from ABCs to AI. Paris: OECD Publishing, 2024. (OECD)
  • OECD. Education Policy Outlook 2024: Reshaping Teaching into a Thriving Profession from ABCs to AI. Paris: OECD Publishing, 2024. Cap. 3, Supporting teaching quality in changing contexts. (OECD)