O Professor Ainda Mais Necessário na Era da Inteligência Artificial

A informação rápida e abundante, nem sempre é útil e verdadeira

A Inteligência Artificial Generativa, aquela que cria novos conteúdos a partir de dados existentes, ampliou significativamente a capacidade de produzir textos, imagens, explicações, exercícios e outros materiais educacionais. Uma pergunta formulada a um sistema de IA generativa pode receber uma resposta em poucos segundos. Essa velocidade, porém, não garante que a informação apresentada seja verdadeira, adequada, atualizada ou pedagogicamente útil.

A própria UNESCO recomenda que a adoção da Inteligência Artificial na educação seja conduzida por uma perspectiva centrada no ser humano, com atenção à proteção de dados, à equidade, à transparência, à segurança e à preservação da capacidade de decisão de professores e estudantes (UNESCO, 2023). Em 2024, a instituição também apresentou um conjunto de competências específicas para os professores, envolvendo compreensão da IA, ética, pedagogia, desenvolvimento profissional e centralidade da ação humana (UNESCO, 2024). 

Muito se tem falado da substituição do professor pela tecnologia, especialmente em relação a Inteligência Artificial. Nesse contexto, a questão central não é saber se a tecnologia substituirá o professor, mas compreender como o professor deverá atuar, e que papeis pode assumir, em um ambiente no qual respostas, conteúdos e materiais estão disponíveis e podem ser produzidos em abundância.

Ademais, O professor também é responsável por orientar o estudante diante de respostas incorretas, conteúdos preconceituosos, informações sem autoria identificável e produções que podem comprometer a integridade acadêmica. Assim, quanto maior for a capacidade da IA de produzir respostas, maior será a necessidade de desenvolver critérios para avaliá-las e de encontrar estratégias que protejam e orientem e esclareçam os alunos.

Informação não é sinônimo de conhecimento

É ponto pacífico que ensinar não consiste apenas em transmitir conteúdo. Shulman (1986) demonstrou que o conhecimento profissional docente envolve a capacidade de transformar determinado conteúdo em formas que possam ser compreendidas por diferentes estudantes. Isso exige não apenas conhecer a matéria, mas também dominar estratégias pedagógicas e reconhecer as dificuldades concretas que surgem durante a aprendizagem. Uma resposta tecnicamente correta pode ser inadequada para determinada idade, etapa escolar, realidade cultural ou objetivo educacional. A máquina pode fornecer respostas, mas é o professor quem identifica essas diferenças e decide como, quando e com qual finalidade pedagógica determinado conteúdo deverá ser trabalhado.

Os sistemas de Inteligência Artificial podem organizar informações e produzir respostas linguisticamente convincentes. Entretanto, não conhecem os estudantes como o professor os conhece, nem compreendem integralmente as condições sociais, culturais, emocionais e educacionais presentes em cada sala de aula. É justamente nesse espaço de decisão que o professor reafirma seu protagonismo seja selecionando, contextualizando, ou traduzindo e adequando aquilo que a tecnologia oferece às necessidades reais da aprendizagem. Nessa perspectiva, propostas como a desenvolvida no livro Curadoria Docente – A Inteligência Artificial na Sala de Aula pode contribuir para transformar o uso da IA em oportunidade de fortalecimento da atuação intelectual e pedagógica do professor.

A Curadoria Docente Como Reposicionamento Profissional

A ideia de apresentar a Curadoria Docente como elemento chave do reposicionamento do professor parte do entendimento de que, diante da abundância informacional, o professor não perde importância pois, ele assume novas responsabilidades. Tal como o curador de uma galeria ou museu que seleciona as obras de arte para uma exposição ou uma mostra e para tal, encontra um sentido e fornece um percurso. A função o professor, nestes tempos de abundância informacional passa a ser, também, incluir a análise das informações produzidas pela IA, a definição e a seleção do que possui valor educacional e a transformação das respostas tecnológicas em experiências efetivas de aprendizagem. E para além dessa perspectiva, cabe ao professor, a partir de sua experiência acumulada e sensibilidade técnica, evitar que o aluno caia em informações maliciosas ou em caminhos que os levem a ciladas prejudiciais, inclusive, para a sua formação ética e moral.

É consenso que a simples presença de uma ferramenta, digital ou não, não é, em si, capaz de produzir inovação ou aprendizagem. É a atuação docente que efetiva o caminho do aprendizado ao atribuir intencionalidade pedagógica à tecnologia seja ela qual for. Essa perspectiva aproxima-se da concepção de Mishra e Koehler (2006), segundo a qual o uso educacional das tecnologias requer a articulação entre conhecimento do conteúdo, conhecimento pedagógico, experiência acumulada do professor e conhecimento tecnológico. 

A Inteligência Artificial Como Apoio, Não Como Substituição

A educação envolve escuta, cuidado, vínculo, responsabilidade, julgamento e compromisso com o desenvolvimento do outro, dimensões que não podem ser reduzidas ao processamento automatizado de informações. Talvez, numa perspectiva de inteligência híbrida, na qual capacidades humanas e recursos de Inteligência Artificial são combinados para apoiar a aprendizagem; a tecnologia não elimina a decisão humana, mas oferece informações e possibilidades que precisam ser interpretadas por professores e estudantes (MOLENAAR, 2022). Sob outra perspectiva, o debate sobre a substituição dos professores não pode, ser reduzido à perspectiva puramente maquínica e ignorar as dimensões sociais, emocionais, cognitivas e relacionais do trabalho educativo (SELWYN, 2019).

O ponto central da reflexão, focada no tema estudado neste Documento Conceitual, vai além de mostrar   por que o professor se torna ainda mais necessário na era da Inteligência Artificial.  A Inteligência Artificial não torna o professor dispensável. Isso é fato! Entretanto, uma prática docente limitada à repetição de informações, que podem ser facilmente encontradas ou produzidas por sistemas tecnológicos, carece de uma (re)leitura do papel do professor, de repente imerso num verdadeiro temporal de informações. 

Na era da IA Generativa, o professor torna-se ainda mais necessário porque é responsável por selecionar, contextualizar, questionar, adaptar e atribuir sentido ao que a tecnologia produz. Cabe-lhe, igualmente, proteger a autoria, estimular a autonomia intelectual e assegurar que a facilidade de obter respostas não substitua o esforço necessário para aprender e a felicidade e o encantamento de descobrir. É sob esta ótica que o conceito de Curadoria Docente pode ser uma alternativa, e talvez um caminho no sentido do (re)posicionamento do professor no ambiente educacional influenciado pela IA. Uma coisa é fato, apenas somente a través da atuação do prfessor é que existe a possibilidade de continuidade no sentido da transformação da informação em conhecimento, do conhecimento aprendizagem significativa e desta em desenvolvimento humano.

REFERÊNCIAS

  • FERREIRA, Antonio. Curadoria docente, a inteligência artificial na sala de aula: um guia para o professor. Ed. Recife, PE: Editora IGP, 2026
  • MISHRA, Punya; KOEHLER, Matthew J. Technological pedagogical content knowledge: a framework for teacher knowledge. Teachers College Record, Nova York, v. 108, n. 6, p. 1017-1054, 2006. DOI: 10.1111/j.1467-9620.2006.00684.x.
  • MOLENAAR, Inge. Towards hybrid human-AI learning technologies. European Journal of Education, v. 57, n. 4, p. 632-645, 2022. DOI: 10.1111/ejed.12527.
  • SELWYN, Neil. Should robots replace teachers? AI and the future of education. Cambridge: Polity Press, 2019.
  • SHULMAN, Lee S. Those who understand: knowledge growth in teaching. Educational Researcher, v. 15, n. 2, p. 4-14, 1986. DOI: 10.3102/0013189X015002004.
  • UNESCO. AI competency framework for teachers. Paris: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2024..
  • UNESCO. Guidance for generative AI in education and research. Paris: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2023.